Atualmente, existem 46 centros de dados instalados no território português, maioritariamente concentrados em Lisboa (25) e Porto (11), aos quais podem vir a juntar-se mais 44 (em que 4 são de grande dimensão), conforme revelado pelo Governo. Mesmo sem sabermos ainda a localização e a dimensão exatas desses potenciais projetos, estaríamos a criar um cenário de 90 centros de dados espalhados pelo país, o que teria um elevado preço ambiental e para a qualidade de vida das populações.
Apesar de altamente improvável, esta possibilidade reflete uma clara inversão de prioridades deste Governo. Primeiro foi lançado o documento estratégico, o Plano Nacional de Centros de Dados (PNCD), que alega que Portugal reúne todas as condições para receber centros de dados, relatando abundância de recursos aquíferos e fornecimento de energia confiável e baseado em energias renováveis. Só depois de instaurar um clima de aceleração e especulação, é que se começam a preparar as bases legais para garantir a proteção das comunidades e dos territórios.
A Quercus acredita que é necessário colocar um travão até estarem reunidas todas as condições que garantam a sustentabilidade da rede elétrica, dos recursos naturais (nomeadamente hídricos), do território e das comunidades onde se pretende instalar estas mega infraestruturas.
O outro lado da moeda: poluição hídrica, atmosférica e sonora
O elevado consumo e potencial de contaminação dos recursos hídricos surge na dianteira dos principais riscos ambientais, juntando-se a pressão sobre solos agrícolas e florestais; a alteração da paisagem e do ordenamento do território, sem esquecer as emissões de gases com efeito de estufa associadas ao funcionamento dos centros de dados (que serão 57% mais elevadas do que se pensava). Por outro lado, os elevados níveis de poluição sonora são também frequentemente reportados por comunidades que vivem perto de centros de dados, assim como o aumento significativo da temperatura local causado pelo calor emitido pelo sistema de arrefecimento por evaporação.
Sem leis claras, o preço da energia pode disparar
Comparativamente a outras indústrias, o fator que mais diferencia os centros de dados é o seu elevadíssimo consumo energético, que pode vir a inflacionar as tarifas energéticas para as comunidades locais (como casos reportados na Irlanda e Países Baixos), além de ter também contrapartidas do ponto de vista ambiental. Mesmo que sejam alimentados a partir de fontes renováveis, como centrais fotovoltaicas ou parques eólicos, há que considerar os impactes na alteração do uso do solo (convertendo solos naturais em solos artificializados) e nos ecossistemas locais (exigindo muitas vezes o abate de floresta autóctone e a destruição de habitats).
Face à falta de resposta do atual Governo em estabelecer de forma objetiva estas bases, a Quercus propõe a adoção imediata de várias medidas ou a criação de bases legais que torne vinculativas algumas das estratégias previstas no Plano Nacional de Centro de Dados:
Consumo da água:
- O uso de sistemas de arrefecimento sem recurso a água como a Refrigeração de Circuito Fechado (Sem Evaporação) ou a Extração de Humidade do Ar com MOFs;
- A criação de sistemas que permitam a reutilização de águas e o uso de água reciclada;
- Privilegiar locais com maior disponibilidade hídrica e condições climáticas favoráveis, para exigir menos recursos no arrefecimento.
Consumo energético:
- O recurso parcial ou total a energias renováveis próprias, incentivando especificamente a utilização da própria infraestrutura já artificializada;
- Garantia de que os promotores se comprometem a pagar um mínimo de capacidade de rede durante 10 a 15 anos, quer esta venha a ser utilizada quer não, acautelando que o custo de reforço da rede fica assegurado e não vai onerar as faturas das famílias.
Contrapartidas socioeconómicas:
- Contribuição anual para um fundo local, proporcional ao consumo de energia, que sirva de apoio a consumidores vulneráveis e à transição energética;
- Perante a eventual necessidade de reforçar a rede elétrica local, tal deve ser suportado pelo promotor e/ou empresas dentro dos maiores consumidores;
- O eventual reforço das fontes de abastecimento de energia deve ser assegurado através de novas infraestruturas renováveis em solo já artificializado, com financiamento dos promotores e participação obrigatória de autarquias e cooperativas;
- Medidas de compensação ambiental desenvolvidas em colaboração com as comunidades locais e as ONG de ambiente envolvidas;
- Disponibilizar parte da capacidade de computação reservada a universidades, startups e serviços públicos;
- Criar uma caução para o desmantelamento e reposição do local nas condições originais, garantindo que os materiais são todos triados de forma a garantir a sua máxima reutilização e reciclagem.
“É necessário exigir precaução e um abrandamento do investimento na criação destas infra-estruturas que alimentam a inteligência artificial. Alguns países que traçaram este caminho antes de nós vêem-se agora forçados a recuar e remediar os erros cometidos. Portugal tem que aprender com a experiência internacional, para não correr sérios riscos económicos, sociais e ambientais.”, afirma Mariana Garanhão, técnica de políticas públicas e relações externas na Quercus.