Aves representam mais de 85% dos animais recebidos. No Dia Mundial das Aves Migratórias, que se assinala a 10 de outubro, a Quercus destaca a importância dos Centros de Recuperação de Animais Selvagens para a conservação da fauna em Portugal.
No primeiro semestre de 2026, 1.181 animais selvagens deram entrada nos três Centros de Recuperação de Animais Selvagens (CRAS) geridos pela Quercus: 484 no Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Montejunto (CRASM), no Cadaval, 380 no Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens (CERAS), em Castelo Branco, e 317 no Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Santo André (CRASSA), no Litoral Alentejano.

Destes animais, 1.055 chegaram vivos aos centros, onde as equipas trabalham diariamente para lhes proporcionar os cuidados médicos necessários e, sempre que possível, criar condições para a sua recuperação e posterior devolução à Natureza.
Os números ganham particular relevância quando comparados com os registos de 2025. Só nos primeiros seis meses de 2026, o CRASM (Montejunto) recebeu já o equivalente a cerca de 72% do total de animais acolhidos ao longo de todo o ano de 2025, enquanto o CRASSA (Santo André) atingiu, no mesmo período, cerca de 62% do total registado no ano anterior.
Aves dominam os ingressos nos CRAS da Quercus
A divulgação destes dados antecede o Dia Mundial das Aves Migratórias, assinalado a 10 de outubro, e evidencia o peso da avifauna no trabalho desenvolvido pelos três centros.
No conjunto dos três CRAS da Quercus, as aves representaram cerca de 86% dos animais recebidos no primeiro semestre de 2026. No CERAS (Castelo Branco), corresponderam a 89,5% dos ingressos, no CRASSA a 85,8% e no CRASM a 82,7%.

Entre as espécies mais recebidas encontram-se várias aves migratórias, reforçando a importância destas infraestruturas não apenas para a recuperação individual dos animais, mas também para a conservação de espécies que todos os anos procuram o nosso país para nidificar e reproduzir-se.
No CERAS (Castelo Branco), o andorinhão-preto (Apus apus) foi a espécie mais recebida, com 60 indivíduos, seguido pela andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum), com 44, ambas aves migratórias, e pelo pardal-de-telhado (Passer domesticus), com 33 indivíduos.
No CRASSA (Santo André), destacam-se o pardal-de-telhado (Passer domesticus), com 45 entradas, o papagaio-do-mar (Fratercula arctica), com 36, e a andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum), com 33.
Já no CRASM (Montejunto), as espécies com mais entradas foram o pato-real (Anas platyrhynchos), com 56 indivíduos, o ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus), com 43, e a andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum), com 22.
Um pequeno milagre: CERAS salvou águia-cobreira eletrocutada
No dia 29 de junho de 2026, uma águia-cobreira (Circaetus gallicus) chegou ao Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens (CERAS) da Quercus, em Castelo Branco, proveniente de Idanha-a-Nova. Esta ave migratória, que todos os anos percorre milhares de quilómetros entre a Europa e África, viu a sua sobrevivência ameaçada por um dos maiores perigos para as rapinas de grande envergadura: as linhas elétricas.

O exame físico concluiu o que, normalmente, é uma sentença de morte: a águia apresentava sinais compatíveis com eletrocussão. Durante semanas, a equipa do CERAS dedicou-se ao tratamento da ave, recorrendo a cuidados veterinários especializados, à alimentação assistida e a tratamentos diários das lesões. Entre as técnicas utilizadas destacou-se a laserterapia, uma abordagem que utiliza a luz para estimular a regeneração dos tecidos e favorecer a cicatrização, com o apoio da Escola Superior Agrária do Instituto Universitário de Castelo Branco.
A recuperação de um animal selvagem exige, no entanto, muito mais do que tratamento médico-veterinário. É necessário encontrar um equilíbrio entre a terapêutica e o bem-estar animal: respeitar o seu comportamento natural, reduzir ao mínimo o contacto humano e evitar situações de stress que possam comprometer todo o trabalho desenvolvido.
A maior parte dos animais selvagens que sofrem eletrocussão não sobrevivem. Mas, contra todas as probabilidades, os tecidos começaram a regenerar-se, a ferida evoluiu favoravelmente e a ave recuperou forças. No dia 11 de setembro, voltou a voar livre, numa devolução à Natureza com a presença da equipa da GNR-SEPNA responsável pela sua recolha e também com o particular que sinalizou a ave ferida às autoridades.
Junho concentra mais de 500 entradas
Os dados revelam também uma forte concentração de ingressos no final da primavera e início do verão. Só em junho, os três Centros da Quercus receberam 509 animais, o equivalente a cerca de 43% de todos os ingressos registados durante o primeiro semestre.
Este aumento está fortemente relacionado com a época de reprodução de muitas espécies. Tal comprova-se pelo facto da principal causa de entrada nos três centros ser a queda do ninho / presença de animais órfãos, representando, em conjunto, 525 animais.
Estes números demonstram a importância de uma resposta especializada durante os meses de primavera e verão, período em que os centros enfrentam uma pressão particularmente elevada devido ao número de crias e juvenis encontrados fora dos ninhos ou em situação de vulnerabilidade.
A única entidade em Portugal a gerir três Centros de Recuperação
A Quercus é atualmente a única entidade em Portugal responsável pela gestão de três Centros de Recuperação de Animais Selvagens, todos eles integrados na Rede Nacional de Centros de Recuperação para a Fauna.
A localização dos três centros permite ter uma atuação descentralizada a nível nacional, em diferentes regiões do território continental, e aumentar a capacidade de resposta, aproximando os cuidados especializados das populações e dos locais onde os animais são encontrados.
O objetivo dos centros é receber animais selvagens feridos, debilitados ou órfãos, prestar-lhes os cuidados veterinários e de recuperação necessários e, sempre que possível, devolvê-los ao seu habitat natural.
O encaminhamento destes animais resulta também de uma ampla colaboração entre cidadãos, autoridades e entidades de conservação. Os dados do primeiro semestre mostram o papel relevante da GNR, do ICNF e dos particulares na entrega dos animais aos três centros.

Quercus congratula-se com continuidade do apoio do Fundo Ambiental
A Quercus congratula-se com a continuidade da linha de financiamento do Fundo Ambiental destinada aos Centros de Recuperação de Animais Selvagens, um apoio fundamental para garantir o funcionamento destas estruturas que prestam um serviço público e a continuidade do trabalho desenvolvido em prol da conservação da fauna selvagem.
Possibilitar a o funcionamento permanente destes hospitais de fauna selvagem significa investir diretamente na sobrevivência de muitas espécies, algumas das quais em risco ou ameaçadas,, garantindo uma resposta técnica e especializada; estimulando o conhecimento científico e a investigação académica; e apostando na educação ambiental de toda da sociedade para a importância de proteger a fauna silvestre.
O que fazer se encontrar um animal selvagem ferido?
Se encontrar um animal selvagem ferido, debilitado ou aparentemente órfão, evite recolhê-lo ou alimentá-lo sem orientação especializada. Contacte as entidades competentes para avaliar a situação e proceder ao correto encaminhamento do animal para um Centro de Recuperação, através da Linha SOS Ambiente e Território: 808 200 520.
Como posso ajudar os CRAS?
Uma das formas mais comuns de ajudar os Centros de Recuperação de Animais Selvagens é através do apadrinhamento de um animal que já está a ser tratado ou que foi resgatado pela próprio particular e entregue nos centros, consistindo num donativo que permite acompanhar a evolução do animal e presenciar a sua devolução à natureza. É possível também colaborar como voluntário/a num dos centros ao longo de todo o ano, bastando ter mais de 18 anos, não sendo necessária formação nem experiência na área.