2 anos depois do escândalo Dieselgate

Estudo revela: gasóleo é pior para o clima do que a gasolina, embora represente ainda 70% dos carros vendidos na Europa

 

Dois anos após o escândalo das emissões, conhecido como Dieselgate, ter exposto a realidade pouco limpa dos carros a gasóleo, um novo estudo da associação Transport & Environment (T&E), da qual a Quercus é membro efetivo, demonstra que os carros a gasóleo, para além de contribuírem para a poluição atmosférica, emitem mais gases com efeito de estufa do que os carros a gasolina.

 

A análise do ciclo de vida das emissões de um veículo prova que os carros a gasóleo emitem mais 3,65 toneladas de CO2, do que um equivalente a gasolina. Este impacte climático superior deve-se a vários fatores, nomeadamente o facto do processo de refinação do gasóleo consumir mais energia; os veículos implicarem mais materiais para a produção de motores mais pesados e complexos; de emitirem mais pela mistura dos biocombustível com o gasóleo; e percorrerem maiores distâncias graças ao preço mais reduzido do gasóleo - ver infografia abaixo.

 

Esta análise vem desarmar os argumentos dos fabricantes de automóveis de que são necessários carros a gasóleo para se atingir os objetivos climáticos. A leitura da brochuras e sites dos fabricantes de automóveis demonstra que a diferença entre os motores equivalentes a gasolina e a gasóleo é mínima, variando apenas entre zero e algumas gramas de CO2. Porém, os veículos a gasóleo são tipicamente mais caros 2.000-4.000€ do que os a gasolina. As alternativas disponíveis no mercado, como os veículos híbridos a gasolina, têm preços semelhantes aos veículos a gasóleo mas emitem cerca de 20-25% menos CO2.

 

gasoleo 

 

7 em cada 10 veículos ligeiros vendidos na Europa são a diesel

Na Europa, o mercado automóvel encontra-se distorcido a favor dos veículos a gasóleo através de regulamentos enviesados e impostos injustos. Embora o diesel represente 50% da quota de mercado na Europa, no resto do mundo é apenas um nicho de mercado. Na Europa, 7 em cada 10 veículos ligeiros de passageiros e comerciais vendidos são a gasóleo, enquanto que nos EUA representam menos de 1% das vendas e na China, o maior mercado de veículos do mundo, menos de 2%.


Este estudo agora divulgado identificou três causas para a dependência Europeia em relação ao gasóleo:

  1. Impostos nacionais sobre veículos e combustíveis distorcidos:
  2. Normas europeias de emissão “Euro” injustas: permitiram, durante décadas, que os veículos a gasóleo emitissem mais NOx do que os a gasolina. Esta questão foi agravada pelo uso de testes obsoletos (recentemente atualizados) e pela fiscalização ineficaz dos regulamentos que permitiu aos fabricantes de automóveis instalarem controlos aos gases de escape ineficientes e baratos, que eram manipulados ou desligados, na maioria dos casos.
  3. Regulamentos de emissões de CO2 enviesados: que estabeleceram limites pouco ambiciosos aos fabricantes de automóveis e lhe permitiram construir carros a gasóleo maiores e mais pesados.

 

Dieselgate deixou legado de 37 milhões de veículos poluentes e ilegais nas estradas


Existem mais de 37 milhões de veículos ligeiros de passageiros e comerciais ilegalmente poluentes a circular na Europa e a resposta da indústria resume-se a uma série de correções incoerentes de software em alguns países, sem haver um programa de despoluição consistente nos 28 países da UE. Na Europa, cerca de 68.000 pessoas morrem prematuramente devido ao NOx emitido pelos veículos a gasóleo

 

Não é de todo admissível que, dois anos após o escândalo do Dieselgate, os fabricantes de automóveis continuem a comercializar veículos a gasóleo poluentes, com a conivência da Comissão Europeia e dos Estados-membros. O verdadeiro escândalo do “Dieselgate” na Europa manifesta-se através do olhar cego dos reguladores nacionais perante a evidência de manipulação dos dados de emissão, com o único propósito de proteger os fabricantes automóveis europeus.

 

Neste sentido, a Quercus reitera que é urgente a criação de um observatório europeu independente que vigie a ação das entidades reguladoras dos vários Estados-membros e assegure que o mercado único de veículos acautela o melhor interesse e a defesa da saúde de todos os cidadãos.


A Europa tem de acelerar a transição para veículos limpos, apostando na tecnologia elétrica e deixar os carros poluentes a gasóleo nos museus. A Quercus relembra que 11 cidades europeias já anunciaram restrições à circulação de veículos a gasóleo mais poluentes a partir de 2020, um sinal de que esta é já uma mudança inevitável, mas que precisa de ser alavancada não só a nível municipal, mas sim nacional.

 

Lisboa, 18 de setembro de 2017



A Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

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