38 anos do Parque Natural da Serra da Estrela: Quercus identifica ameaças aos valores naturais

serra estrelaComemora-se hoje, dia 16 de julho, o 38º aniversário da criação do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). A Quercus, à semelhança do que já tem efetuado nos últimos meses, faz uma retrospetiva do que foi feito de positivo e negativo nesta Área Protegida e traça cenários com base na definição de ameaças e na identificação de oportunidades.

 

A Serra da Estrela é um dos destinos de eleição do turismo em Portugal e, já nos 70, se fazia sentir uma grande procura por este local, razão pela qual em 1976 o Estado Português tomou a iniciativa de criar o Parque Natural da Serra da Estrela. Com o objectivo de promover uma utilização racional da serra, não descurando a conservação da Natureza, a proteção da paisagem e o bem-estar das populações, a área protegida abrange essencialmente o maciço da Estrela, um local de refúgio para a vida selvagem, com a presença de espécies com elevado valor para a conservação como a Lagartixa-de-montanha, a Boga-comum e o Morcego-de-ferradura-mediterrânico, bem como de formações vegetais endémicas de importância nacional e europeia. É a área mais emblemática de Portugal continental para a conservação dos valores naturais associados à altitude, muitos deles de carácter exclusivo, como os zimbrais-anões de Juniperus communis com uma pequena área de ocupação acima dos 1700 m de altitude. É de igual forma relevante para a conservação das florestas mediterrânicas de Taxus baccata, dado encontrar-se aqui o limite sul europeu da distribuição deste habitat prioritário, dominado ou parcialmente dominado pelo teixo.

 

Devido às suas características, a serra da Estrela integrou a Rede Natura 2000, através da criação do Sítio "Serra da Estrela", e foi classificada como Reservas Biogenéticas do Conselho da Europa: "Planalto Central da Serra da Estrela" e Sítio Ramsar "Planalto Superior da Serra da Estrela e a parte superior do rio Zêzere".

 

Contudo, este Parque Natural tem vindo a ser afectado ao longo do anos por vários factores que degradam os ecossistemas e colocam em causa os objectivos propostos aquando da sua criação, sendo disso exemplo os impactes provocados pelas atividades humanas, destacando-se o aumento da pressão turística e urbanística nas Penhas da Saúde e Videmonte, a implementação de infra-estruturas, como parques de campismo, redes viárias para acesso e estacionamento na Torre, equipamentos turísticos na Torre, Lagoa Comprida e Penhas Douradas/Vale do Rossim, instalação de parques eólicos e instalação de linhas de transporte de energia e a extração de inertes, com a instalação de pedreiras. Verifica-se, também, um crescimento urbano com ausência de política de reabilitação de edifícios já existentes, a ausência de harmonização entre os zonamentos dos diversos PDM, com consequente degradação da qualidade de água provocada pela insuficiente taxa de cobertura ao nível da recolha e tratamento de águas residuais.

 

Esta área protegida também tem vindo a sofrer alterações significativas nos sectores da agricultura e da silvicultura, com o abandono das práticas tradicionais e a intensificação e industrialização dos sectores, principalmente na exploração florestal assente na monocultura de espécies resinosas como o pinheiro-bravo e o pinheiro-do-oregon (espécie exótica), situação que, aliada a uma elevada frequência de incêndios, tem implicado a destruição de alguns dos últimos redutos da floresta autóctone. O Parque Natural é ainda afetado por vários fatores de ameaça como a captura ilegal de espécies da fauna e flora, a plantação de espécies exóticas, a sobre-exploração de aquíferos, o excesso de concentração de visitantes em zonas sensíveis, a prática ilegal de desportos de natureza todo-o-terreno, o montanhismo e esqui, e pressões para abertura da via intermunicipal Videmonte-Lagoa Comprida, do túnel de atravessamento da serra e para a construção de uma nova barragem para abastecimento público, a barragem das Cortes, no concelho da Covilhã, sem uma justificação plausível.

 

Neste contexto, a Quercus reitera a necessidade da aplicação de medidas de gestão no Parque Natural que permitam articular o turismo, o ordenamento do território e o desenvolvimento local das populações com a manutenção e o restauro dos ecossistemas naturais, que incluam a alteração da política de ordenamento florestal, a gestão sustentada da atividade cinegética, a criação de programas de incentivos e apoios às praticas agrícolas tradicionais, à pastorícia de percurso e à fixação de população, a promoção do ecoturismo, da agricultura biológica, da gastronomia tradicional e a certificação de produtos de elevada qualidade (por exemplo: água, pão, mel, queijo, carne, plantas aromáticas e medicinais), procurando dinamizar uma economia de proximidade com retorno para as populações locais. É importante, também, adoptar uma estratégia que contrarie o recorrente ciclo de incêndios, com a recuperação da floresta autóctone, como são exemplo os projetos desenvolvidos nos terrenos do baldio no vale glaciar do Zêzere que promovem a biodiversidade, a diminuição do risco de incêndios e da erosão. A Quercus exige, também, o alargamento da área do parque natural com a inclusão da Área do Souto de Famalicão, referência como de interesse para a botânica.

 

Para avaliar a Área Protegida foi elaborado um quadro, que é colocado em baixo, com base numa análise que apresenta o diagnóstico (Forças e Fraquezas) e o prognóstico (Oportunidades e Ameaças).

 

Lisboa, 16 de Julho de 2014

 

A Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

 


 

 

TABELA PNSE

 

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