Consumo intensivo de água dos data centers é preocupante perante previsões de 40% de índice de escassez hídrica no rio Tejo para o período 2028-2033
Os centros de dados continuam a ganhar terreno no nosso país, levantando sérias dúvidas sobre os seus impactes ambientais, nomeadamente no que respeita ao consumo energético; à qualidade e disponibilidade dos recursos hídricos; ao uso/ocupação do solo; à poluição sonora e à criação de ilhas de calor. A Quercus manifesta a sua preocupação pelo facto de ter sido dada luz verde à construção de um segundo centro de dados no concelho de Abrantes, cujo Pedido de Informação Prévia (PIP) mereceu pronúncia favorável unânime da Câmara Municipal.
Promovido pelo grupo Hyperion, este mega data center ocupará cerca de 151.000 m² de área de implantação e 287.000 m² de área de construção, junto à rotunda de Alvega, e uma ligação elétrica anunciada de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego. O empreendimento foi classificado como Projeto de Interesse Nacional (PIN), um estatuto que permite acelerar prazos processuais.
Trata-se de um empreendimento, por si só, excessivo para o território que pretende ocupar, com potenciais impactes ambientais, hídricos e territoriais. Nesse sentido, a Quercus exige a realização de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) como condição prévia para um eventual licenciamento.
2 mega centros de dados em Abrantes fazem soar alarmes sobre impactes cumulativos
Convém lembrar que o concelho de Abrantes tem já em curso outro centro de dados de grande dimensão, promovido pela EDC ONE, e previsto para os terrenos em frente à antiga central termoelétrica do Pego. Aprovado em setembro de 2025, ao abrigo de um Projeto de Interesse Municipal (PIM), o projeto obteve isenções fiscais de 16,2 milhões de euros.
A coexistência de dois projetos desta magnitude no mesmo concelho, ambos dependentes do ponto de ligação à rede na Central do Pego, levanta questões de impactes cumulativos, ao nível do consumo e contaminação de recursos naturais, da pressão sobre solos agrícolas e florestais, e da alteração da paisagem e do ordenamento territorial, que não estão, até ao momento, a ser avaliadas de forma integrada.
A nível energético, os valores anunciados para este centros de dados (20 MW para o de Alvega e 300 MW para o EDC ONE Pego) correspondem à potência máxima disponível, não implicando que os centros de dados operem continuamente à capacidade total. Contudo, mesmo admitindo um cenário conservador de apenas 30% de utilização média da potência instalada, o consumo conjunto irá aumentar a cerca de 841 GWh/ano, aproximadamente 5,7 vezes o consumo anual de eletricidade do concelho de Abrantes em 2024 (148,8 GWh). À plena capacidade, o consumo poderá atingir cerca de 2,8 TWh/ano, correspondente a quase 19 vezes o consumo anual atual do concelho.
Esta preocupação ganha ainda mais relevância à luz do diagnóstico mais recente da própria APA sobre o estado da Bacia Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste (RH5A) para o 4.º ciclo (2028-2033), onde se revela um índice de escassez hídrica (WEI+) de 40% no rio Tejo. É precisamente neste contexto de recursos hídricos já sob pressão, que se pretende instalar mais uma infraestrutura industrial de consumo intensivo de água.
Plano Nacional de Centro de Dados é demasiado otimista
A Quercus considera que o Plano Nacional de Centros de Dados (PNCD) é demasiado otimista, descurando os riscos e criando salvaguardas que até ao momento não saíram do papel, mesmo que os projetos desta natureza estejam a crescer como cogumelos.
O próprio PNCD reconhece que “do lado da oferta, vários mercados europeus maduros têm registado constrangimentos na instalação de novas infraestruturas, devido às limitações energéticas, ambientais e territoriais”. No entanto, em vez de analisar as causas destes constrangimentos, como potenciais fontes de aprendizagem para um desenvolvimento sustentável desta indústria a nível nacional, escolhe enquadrar o recente clima de precaução como uma oportunidade estratégica. Cabe relembrar que países como a Irlanda ou os Países Baixos têm vindo a relatar impactos na rede elétrica, no território, nas comunidades e nos ecossistemas que justificam a necessidade de abrandar e refletir sobre a implementação dos centros de dados.
Exigimos Estudo de Impacte Ambiental e benefícios tangíveis para as comunidades
As metas de transição digital e energética não podem atropelar a salvaguarda ambiental e o ordenamento do território. Nesse sentido, exigimos:
- Um Estudo de Impacte Ambiental antes de qualquer decisão política ou administrativa de viabilização do centro de dados do grupo Hyperion, e não remetido para a fase de licenciamento;
- Um Estudo de Impacte Ambiental cumulativo, que avalie de forma integrada os impactes somados de ambos os centros de dados (do grupo Hyperion e da EDC ONE) ao nível dos recursos hídricos, da rede elétrica regional, do potencial de aumento da temperatura local, da área agrícola e florestal afetada e da poluição hídrica e sonora associada;
- Uma análise independente, completa e publicamente acessível dos impactos destes projetos sobre o rio Tejo, tendo em conta o estado atual da bacia hidrográfica, com cerca de 60% das massas de água superficiais e 40% das subterrâneas ainda abaixo do Bom estado. Esta análise deve ainda avaliar que impactes o efeito “ilha de calor” gerado pelos centros de dados pode ter na qualidade da água captada para consumo humano, bem como na estabilidade das populações de fauna e flora fluviais e ribeirinhas, considerando cenários de seca severa e de ondas de calor.
- Que a APA e a CCDR-LVT não emitam parecer favorável enquanto não estiverem esclarecidas todas as condicionantes hoje identificadas como “favoráveis condicionadas”.
- Que seja reavaliada a escala territorial da Zona Livre Tecnológica (ZLT) de Abrantes, de forma a impedir que mais de metade do território deste concelho fique sujeito a um regime concebido para usos experimentais e transitórios;
- A garantia de prazos alargados de auscultação pública, com a realização de sessões presenciais de esclarecimento em Alvega e na Concavada, assegurando o direito de participação ativa das populações locais diretamente afetadas pelos projetos em causa;
- A implementação de mecanismos legais que obriguem a integrar benefícios tangíveis para as comunidades locais, tal como previsto no PNCD. Antes de avançar para o licenciamento e implementação no terreno destes empreendimentos, deve ser garantida a partilha de benefícios com as comunidades locais associada aos projetos de centros de dados.
26 de agosto de 2026