A Quercus manifesta a sua surpresa e reserva sobre a anunciada mudança na coordenação do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves, já com efeitos a partir de 1 de junho, que passará a ser assumida diretamente pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), sem ter sido previamente articulada com os parceiros ibéricos, que já se mostraram “chocados” com esta notícia.
Causa estranheza o eventual e repentino afastamento do atual coordenador e de toda a equipa de técnicos especializados que, há 16 anos, contribuem para o sucesso do CNRLI, cuja capacidade técnica, científica e operacional tem contribuído de forma irrepreensível para a recuperação da população de lince-ibérico em Portugal. Lembramos que esta espécie chegou a estar à beira da extinção, existindo atualmente cerca de 2400 linces na Península Ibérica.
O próprio Grupo de Especialistas de Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), da qual a Quercus é membro, alertou para os riscos desta transição e sublinhou a “importância da continuidade técnica”.
Quercus pede a Jorge Moreira da Silva que se pronuncie publicamente
Perante as reações de surpresa da parte de especialistas e parceiros internacionais, a Quercus considera que é de interesse público saber a opinião de Jorge Moreira da Silva, que pode ser considerado o “pai” da reintrodução do lince-ibérico em Portugal, uma vez que tutelava o Ministério do Ambiente em 2014, ano em que arrancou esta importante medida de conservação.
A Quercus pede mais clareza nos esclarecimentos prestados pela tutela e apela à apresentação de um plano de transição transparente e tecnicamente fundamentado sobre esta mudança na equipa do CNRLI, idealmente incluindo integração dos atuais profissionais na estrutura do ICNF, para que possam dar continuidade às suas funções.
Nesse sentido, apelamos para que:
- Seja divulgado o enquadramento técnico, administrativo e orçamental que conduziu à decisão de internalizar a gestão do CNRLI no ICNF;
- Seja esclarecido, com a máxima brevidade, se a atual equipa continuará a integrar o CNRLI e, caso seja substituída, qual a experiência e formação dos novos elementos;
- Sejam explicadas as medidas previstas para assegurar uma transição técnica, legal e operacionalmente segura;
- Sejam auscultados os parceiros do Programa Ibérico de Conservação Ex-Situ do lince-ibérico relativamente a este processo de transição.
Enquanto ONGA responsável pela gestão de três Centros de Recuperação de Animais Selvagens em Portugal, a Quercus lembra que a conservação da natureza deve assentar numa relação de cooperação entre entidades públicas, organizações não governamentais, centros de recuperação, investigadores e sociedade civil. Em momentos de particular sensibilidade institucional, é essencial privilegiar o diálogo, a transparência e o interesse público.
A Quercus continuará a acompanhar esta situação, aguardando os esclarecimentos das entidades competentes.