Quando falta cerca de um mês para o início do período crítico de incêndios, o Núcleo Regional de Aveiro da Quercus vem destacar um caso prático ocorrido na região para demonstrar como o sistema de proteção da floresta contra incêndios já está a falhar muito antes do verão. Em causa está um incêndio ocorrido em março, em Eixo, no concelho de Aveiro, que consumiu de forma inexplicável cerca de 500 hectares em poucas horas, obrigando mesmo ao corte da A1 nos dois sentidos e mobilizando centenas de operacionais.
Ora, um incêndio desta dimensão, com humidades relativas elevadas e um nível de risco oficialmente classificado como “reduzido”, não é um fenómeno meteorológico, é um problema estrutural e expressão direta de um modelo florestal falhado.
Este é o resultado previsível de décadas de opções políticas que promovem a continuidade de monoculturas, desresponsabilizam o Estado e deixam o território sem gestão funcional.
A monocultura de eucaliptal e uma paisagem inflamável
A monocultura de eucaliptal, principalmente na região Centro, configura uma paisagem de elevada inflamabilidade, com carga combustível acumulada e compostos voláteis que facilitam a propagação por projeção. Nestes contextos, os indicadores clássicos de risco perdem capacidade preditiva. O que falha não é o tempo, é o modelo de ocupação.
A recorrência de incêndios nesta área, como evidenciado pelo corte da A1 entre Albergaria-a-Velha e Aveiro Sul e pela ameaça direta a habitações na zona da Granja, demonstra uma falha sistémica: infraestruturas críticas e populações permanecem expostas a um território sem descontinuidades nem desenho funcional do combustível.
Não estamos a falar de floresta, estamos a falar de segurança pública.
Prevenção que não previne
O incumprimento das faixas de gestão de combustível mantém-se generalizado, incluindo em zonas de interface urbano-florestal. Acresce uma limitação conceptual: a substituição de estratos arbóreos por vegetação rasteira não reduz automaticamente o risco e pode, em certos contextos, aumentá-lo.
A prevenção tem sido tratada como obrigação administrativa e não como desenho ecológico do território. O resultado é um conjunto de medidas fragmentadas, sem eficácia sistémica.
Inação institucional e permissividade política
Esta ineficácia operacional liga-se diretamente a uma falha institucional. A ausência de fiscalização efetiva, a desatualização de planos municipais e a tolerância à continuidade de monoculturas revelam um défice de governação territorial.
Em paralelo, persistem incentivos diretos e indiretos à expansão do eucaliptal, enquanto a diversificação enfrenta barreiras técnicas, financeiras e administrativas. O sistema não é neutro: orienta o território para soluções de curto prazo e elevada vulnerabilidade.
Esta dualidade não é um acaso, é uma escolha política.
A Quercus exige maior concretização e orientação estrutural dos investimentos
É fundamental garantir que os investimentos a fazer na gestão da floresta se traduzem efetivamente numa transformação do modelo de ocupação da paisagem, e não apenas na gestão recorrente do risco.
Nesse sentido, a Quercus defende que a implementação do plano deve assegurar:
- A criação de mosaicos agroflorestais diversificados e funcionalmente conectados;
- A promoção ativa de espécies autóctones e a redução progressiva da dependência de monoculturas altamente inflamáveis;
- O incentivo a modelos de exploração florestal de longo prazo, baseados em ciclos de produção mais extensos e em espécies de maior valor ecológico e económico, promovendo sistemas mais resilientes, menos dependentes de intervenções frequentes e com benefícios sustentados ao longo do tempo;
- O reforço de soluções de gestão de combustível sustentáveis, como o pastoreio e a valorização local de biomassa;
- A valorização económica de sistemas resilientes, incluindo a cortiça, a apicultura e a agricultura biológica;
- O apoio à gestão conjunta e ao emparcelamento em territórios de minifúndio.
Sem esta reorientação, o financiamento arrisca-se a compensar os efeitos do problema, em vez de o resolver.
Financiar o modelo atual é financiar os próximos incêndios
A resiliência não resulta de declarações nem de programas genéricos. Resulta de decisões políticas que possam alterar, de forma concreta, a estrutura da paisagem. E essas decisões continuam por tomar. Não é a severidade da época de incêndios que está em causa, mas a incapacidade de reduzir estruturalmente o risco.
Sem essa mudança, o país continuará a assistir ao mesmo padrão: mais incêndios, mais danos, mais recursos mobilizados, e as mesmas causas por resolver.