Comissão de avaliação de incêndios no papel há mais de 6 meses

A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza recebeu com profunda perplexidade e indignação a notícia de que a comissão técnica independente, destinada a avaliar os grandes incêndios, permanece “no papel” há mais de seis meses. Num cenário de agravamento da crise climática, esta inércia da Assembleia da República é um sinal alarmante de negligência na gestão do território e na proteção de pessoas e ecossistemas.

Comissões “de fachada” e a paralisia do sistema

A Quercus critica duramente a recorrência de criação de estruturas que, embora anunciadas com pompa mediática como solução para a tragédia dos fogos, acabam por se perder em labirintos burocráticos.

É inaceitável que, seis meses depois da sua criação, uma comissão desta importância não tenha sequer condições de funcionamento. Isto demonstra que o combate aos incêndios em Portugal continua a ser gerido de uma forma reativa, manifestamente burocrática e política, em vez de assentar numa base científica, técnica e operacional, de visão a longo prazo.“, afirma Miguel Ribeiro, do Grupo de Trabalho das Florestas da Quercus.

Risco de incêndio aumenta exponencialmente após tempestades

Esta inércia burocrática revela-se ainda mais grave tendo em conta o rasto de destruição deixado pelas tempestades que assolaram o país nas primeiras semanas do ano, e que deixaram uma enorme carga de combustível no solo. Estão na ordem dos milhões as árvores derrubadas pelas intempéries (só em Leiria foram 8 milhões), biomassa essa que, se não for retirada, aumenta significativamente o risco de incêndio para o próximo verão. 

Um cenário deveras preocupante se considerarmos que, mesmo sem este risco acrescido, o nosso território rural e florestal já está habitualmente numa situação de enorme vulnerabilidade à ocorrência de grandes fogos.

A exclusão deliberada das ONGAs

A par da inoperância da referida comissão, a Quercus destaca com particular preocupação a ausência sistemática das Organizações Não-Governamentais de Ambiente (ONGAs) nestes órgãos de decisão e avaliação.

As ONGAs detêm conhecimento profundo do terreno, da biodiversidade e das dinâmicas florestais, sendo parceiros indispensáveis para uma reforma estrutural da floresta, baseada numa visão integrada dos territórios a nível ecológico, económico e social. A sua exclusão sugere uma vontade de evitar o escrutínio independente e de manter um modelo de gestão em circuito fechado,  que tem falhado consecutivamente em proteger a floresta autóctone e em prevenir os grandes incêndios.

Exigências da Quercus

Perante a gravidade dos factos, a Quercus exige:

  1. Esclarecimentos imediatos: A Assembleia da República e os Grupos Parlamentares devem explicar por que razão a comissão não está em funções e quem são os responsáveis por este atraso de meio ano.
  2. Operacionalização urgente: A comissão deve ser dotada de meios e autonomia para trabalhar de imediato, antes que a próxima época de incêndios encontre o país desprevenido e novamente desarmado de conclusões e aprendizagens.
  3. Representatividade real: A integração de representantes das ONGAs de ambiente nos processos de monitorização e avaliação das políticas de fogo.

A Quercus reitera que a floresta portuguesa não pode continuar à espera de despachos que nunca saem da gaveta. A prevenção faz-se com ação, não com anúncios vazios de conteúdo e execução.

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