A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza seguiu (via webcast) a apresentação da 2ª parte do 4º relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) que decorreu esta manhã em Bruxelas. Depois da componente sobre “a ciência das alterações climáticas” apresentada em Paris no início de Fevereiro e que estimava novos valores para o aumento da temperatura e da subida do nível do mar à escala mundial, confirmando o papel das actividades humanas no aquecimento global, a componente hoje divulgada refere-se aos “impactes, adaptação e vulnerabilidades das alterações climáticas”.

 

O aspecto mais relevante do relatório apresentado pelo Prof. Martin Parry do IPCC foi o facto de terem pela primeira vez sido identificados, descritos e identificados os impactes significativos que já estão a acontecer devido às alterações climáticas, não se tratando assim de modelos mas sim de realidades e que têm quer uma dimensão regional, quer uma dimensão mundial.

 

 

Ecossistemas em maior risco incluem muitos dos paraísos da biodiversidade em Portugal; estuários, zonas costeiras baixas, ecossistemas e agricultura mediterrâneos e ainda a pesca estão em maior risco

 

Barragens na Península Ibérica verão produção de electricidade reduzida em 25% até 2070

 

No quadro de previsões face ao aumento da temperatura, os impactes sentir-se-ão nas plantas, animais, recursos hídricos e gelos, bem como na saúde humana. Foi referido que 30% das zonas húmidas se poderão vir a perder, sendo que Portugal tem importantes zonas desta natureza como os Estuários do Tejo, Sado, Ria de Aveiro, Ria Formosa. Haverá igualmente um significativo número de espécies que serão extintas. O papel da Quercus na preservação da biodiversidade existente tem sido relevante em particular através da criação de microreservas.

 

A produtividade dos cereais será reduzida face ao aumento da temperatura. Os eventos meteorológicos extremos (caso do Verão de 2003) serão mais frequentes e afectarão países como Portugal.

 

Foi lembrado igualmente que serão as sociedades mais pobres do planeta que mais sofrerão, sendo que nos países ricos também serão as pessoas com menores posses as mais afectadas.

 

Por último, o Painel considera que as medidas de mitigação (de redução das emissões) não evitam a necessidade de adaptação face às emissões de gases de efeito de estufa entretanto efectuadas, pelo que é necessário desde já e nas próximas décadas uma preparação específica por cada país para esta nova realidade.

 

 

Portugal precisa de plano de adaptação urgente e de medidas jurídicas para lidar com perda da propriedade privada na orla costeira

 

O projecto SIAM tem tido um papel extremamente relevante na inventariação dos impactes devidos às alterações climáticas e no começo da identificação das medidas de adaptação para Portugal. Porém, é preciso desde já que de uma forma integrada sejam encontradas soluções de médio/longo prazo, com avaliação de custos e inclusive com soluções jurídicas para as áreas privadas que venham a ser destruídas pelo aumento do nível do mar, ampliando em muito os efeitos que a erosão mostrou recentemente na Caparica e Esmoiriz e que não impliquem indemnizações e obras impossíveis de cobrir pelo Estado. Fundamental é trabalhar principalmente de forma preventiva. É preciso também que muitos dos projectos sejam repensados neste novo contexto, nomeadamente no que respeita ao uso da água na agricultura, à ocupação das zonas costeiras e na pesca, para além dos aspectos de protecção das populações nas zonas ribeirinhas.

 

Impactes “negociados”

 

A apresentação pública prevista para as 9 horas (hora de Portugal) em Bruxelas apenas teria início após hora e meia de atraso, na sequência de uma maratona que durou toda a noite na negociação dos termos a utilizar no sumário do relatório agora apresentado. Apesar do IPCC ser um painel de natureza científica ao nível da Organização Meteorológica Mundial e Programa das Nações Unidas para o Ambiente, o papel político de delegados de determinados países faz-se sempre sentir. As organizações não governamentais de ambiente alertaram para a minimização dos termos do relatório que se referiam aos impactes já existentes e relevantes na sociedade, principalmente por parte dos delegados dos Estados Unidos da América, Arábia Saudita, China e Índia.

 

Lisboa, 6 de Abril de 2007

 

 

 

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