Violações dos direitos humanos e danos ambientais na produção de sumo de laranja vendido nos supermercados europeus

Estudo realizado pela Campanha SUPPLY CHAINGE dá a conhecer infrações deliberadas ao longo das cadeias europeias de abastecimento de sumo de laranja

 

 

Berlim, 08.10.2015 - Em 2013, o consumidor médio europeu bebia 11 litros de sumo de laranja por ano, 80% dos quais importados do Brasil. O estudo divulgado hoje pela Quercus e pela Christliche Initiative Romero e.V. (CIR, Alemanha) e pela GLOBAL 2000 (Áustria) é o resultado de uma investigação efetuada ao longo de toda a cadeia de fornecimento de sumo de laranja, desde as plantações no Brasil até aos supermercados europeus. Tratando-se de uma investigação em primeira mão, o estudo revela a existência de condições de trabalho precárias e dá a conhecer novos aspetos do terrível impacto ecológico da produção mundial de sumo de laranja.

 

A Quercus resume o estudo: “A indústria do sumo de laranja tem crescido muito e os exportadores têm lucros anormalmente elevados. No entanto, estas receitas astronómicas são conseguidas à custa das condições de trabalho nos pomares e fábricas e à custa do meio ambiente. O estudo encontrou condições de escravatura moderna em todas as fases da cadeia brasileira de abastecimento de sumo de laranja e o seu impacto ambiental é devastador.”

 

Más condições laborais e ambientais

A investigadora  Sandra Dusch Silva, do CIR, dá conta do que descobriu relativamente às condições de trabalho no Brasil: “Os trabalhadores produzem cerca de 1,5 toneladas de laranjas para conseguirem um  rendimento de 10 euros por dia. Não existe proteção contra o sol e a fruta é colhida apenas com a ajuda de escadas encostadas às árvores. Os trabalhadores sobem e descem estas estruturas instáveis transportando até 30kg de laranjas e estão sujeitos a uma grande pressão em matéria de tempo.”

 

“Demonstramos que há um uso excessivo de pesticidas nos laranjais do Brasil”, diz Martin Wilderberg, especialista em proteção ambiental da GLOBAL 2000. E continua: “isto é particularmente frustrante, porque a produção de laranjas faz-se perfeitamente sem pesticidas, como demonstram as citriculturas biológicas por todo o mundo.”

 

 

A indústria e a distribuição do sumo de laranja

 

A indústria de sumo de laranja, tanto no Brasil como na Europa, caracteriza-se por uma enorme concentração do mercado. Embora 3 em cada 5 copos de sumo sejam provenientes do Brasil, existem apenas três empresas que exportam sumo de laranja para todo o mundo: a Citrosuco, a Cutrale e a Luis Dreyfus. A Europa é o principal mercado de exportação. A outra extremidade da cadeia de abastecimento está igualmente monopolizada: há cada vez menos cadeias de distribuição no mercado europeu. Uma das principais estratégias dos retalhistas europeus é a produção de marcas próprias. Em vez de comprarem e venderem marcas independentes, os supermercados fornecem e vendem cada vez mais os seus
próprios produtos. Na Europa, 66% de todo o sumo de laranja é vendido através de marcas próprias dos supermercados e cadeias de descontos. O estudo revela que os supermercados e as cadeias de lojas não estão a cumprir as suas responsabilidades nas cadeias de abastecimento dos seus produtos. “Desde 2013 que os supermercados prometem agir mas, até agora, as condições no Brasil não melhoraram”, afirma Sandra Dusch Silva, que já em 2013 tinha publicado um relatório sobre o sumo de laranja para o CIR e dirige o atual estudo.

 

A 7 e 8 de outubro, a cidade de Antuérpia, na Bélgica, recebe a Conferência Internacional do Sumo, uma conferência à escala industrial; os sindicatos e grupos de defesa dos direitos dos trabalhadores não estão representados e isto mostra que a indústria mundial do sumo de laranja vai discute o seu futuro sem a presença dos trabalhadores e dos seus representantes.

 

 

Petição Europeia por sumo de laranja mais sustentável nos supermercados

 

Juntamente com este estudo, a campanha SUPPLY CHAINGE lança uma petição europeia para obrigar os supermercados a aplicar padrões sociais e ambientais nas cadeias de abastecimento das suas marcas próprias. A petição estará online a partir de 8 de outubro de 2015 na página  www.supplychainge.org.

 

 

Acerca da campanha Supply Chainge

 

A campanha SUPPLY CHAINGE reúne organizações da sociedade civil de toda a Europa e do hemisfério sul. O seu principal objetivo é tornar as marcas dos supermercados (muitas vezes referidas ‘marcas próprias’ ou ‘marcas privadas’) mais justas e mais sustentáveis. Quando comparados com a sua enorme influência, os esforços feitos pelas cadeias de supermercados para evitar as violações dos direitos humanos e para reduzir os danos ambientais ao longo das cadeias de abastecimento dos seus produtos são extremamente desanimadores. A campanha é financiada pela União Europeia, sendo os conteúdos da exclusiva responsabilidade do promotor e parceiros.

 

 

Lisboa, 9 de Outubro de 2015

 

A Direcção Nacional da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

 

Notas:

Christliche Initiative Romero e.V.

A Christliche Initiative Romero e.V. (CIR) é uma organização que luta pelos direitos humanos e dos trabalhadores na América Central e em todo o hemisfério sul. Fundada em 1981, tem como principal objetivo o apoio de iniciativas locais e de organizações da sociedade civil na Nicarágua, em El Salvador, na Guatemala e nas Honduras e a promoção de campanhas e atividades educativas na Alemanha e na UE.

 

GLOBAL 2000

A GLOBAL 2000 é uma organização ambiental austríaca independente. É membro da Friends of the Earth, a maior rede mundial de organizações ambientais.

 

Material de imprensa

 

O resumo executivo do estudo em português está disponível a partir de dia 8 de outubro e o estudo completo ficará disponível a 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, em http://supplychainge.quercus.pt/sumodelaranja.pdf

 

 

A versão inglesa está disponível em www.supplychainge.org

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