Alterações climáticas: Portugal e o mundo têm de mudar para uma economia de baixo carbono

 

alteracoes climaticasHoje, 13 de Abril, são apresentados em Berlim (às 11h locais) os resultados do terceiro grupo de trabalho do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) sobre as opções de redução dos gases de efeito de estufa, ou mitigação.

O relatório mostra que, ainda é possível evitar as alterações climáticas catastróficas, mas para tal é necessário um rápido e sustentado corte nas emissões de carbono.

O relatório aponta para os benefícios do aumento das energias renováveis (não poluentes) e a eliminação gradual, a longo prazo, dos combustíveis fósseis poluentes. Além de destacar a necessidade de transformar o sistema energético, o IPCC diz que outras soluções para a crise climática incluem o uso mais eficiente da energia, bem como o investimento em melhores tecnologias de transportes e de construção.

Para o mundo evitar os piores impactes das alterações climáticas, o relatório aponta que o uso de energia de baixo ou até zero carbono, que terá de pelo menos triplicar até 2050. Para financiar esta transição para uma economia de baixo carbono, o IPCC afirma que deve ser cortado o investimento em combustíveis fósseis em pelo menos 30 mil milhões de dólares por ano, nas próximas décadas. Ao mesmo tempo os investimentos energias renováveis têm de duplicar.

Esta terceira parte do Quinto Relatório de Avaliação do IPCC deve ser encarado como mais uma pressão sobre os líderes mundiais para atuarem imediatamente, pois reduzir já a poluição será mais barato e mais eficaz.

A transição para as energias renováveis irá proporcionar enormes benefícios que vão desde a segurança energética, a criação de empregos, a economia sustentável, até à melhoria da saúde pública.

Este relatório mostra que existem as soluções para a crise climática. Porém, com os níveis atuais de poluição de carbono que causam as alterações climáticas e que continuam a aumentar em todo o mundo, muito mais precisa de ser feito, e rapidamente, para acelerar a transição para uma energia limpa, proveniente de fontes renováveis.

Portugal - Quercus quer medidas em linha com as perspetivas do relatório

Portugal deve tão rapidamente quanto possível deve apresentar um Plano Nacional para as Alterações Climáticas até 2030 que seja consistente com um desenvolvimento económico de baixo carbono, tal como apontado por um anterior documento governamental, o Roteiro de Baixo Carbono para 2050.

O país deve, na visão da Quercus, apostar:

-    Na eficiência energética, como forma de melhoria da intensidade energética, cujos valores atuais, apesar de melhores, ainda se traduzem num maior gasto de energia por cada unidade de riqueza produzida;
-    Na produção de energia por fontes renováveis, onde tem já uma posição invejável, e cujos progressos da última década não podem estagnar;
-    Atuar no setor dos transportes e do ordenamento do território, promovendo uma mobilidade mais sustentável, utilizando cada vez mais modos suaves como a bicicleta, promovendo o uso do transporte público, e apoiando o uso de motores elétricos, não apenas nos automóveis, mas em veículos mais leves e pequenos como a bicicleta, a mota, ou os automóveis de dois lugares.

A Quercus e a Rede Europeia de Ação Climática estarão atentas aos compromissos que os líderes da União Europeia assumirão na Cimeira do Clima, promovida pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, em setembro próximo. Esta Cimeira, uma iniciativa inovadora da ONU, pretende ser uma alavanca e estabelecer as bases para um forte tratado global que deverá ser assinado em Paris em 2015.

Principais conclusões deste relatório

-    As alterações climáticas são um problema comum e global. Para o resolver é necessária cooperação internacional, em conjunto com políticas locais, regionais e nacionais eficazes.

-    As emissões cresceram mais rapidamente ao longo dos últimos dez anos (2,2% ao ano) do que ao longo do período 1970-2000 (1,3% por ano);

-    A crise económica mundial de 2007/2008 reduziu temporariamente as emissões, mas não alterou a tendência geral de aumento.

-    O CO2 continua a ser o gás de efeito estufa mais comum (GEE), representando cerca de 76% das emissões totais de gases de efeito estufa em 2010.

-    Os padrões regionais de emissões de GEE estão a mudar de acordo com as mudanças na economia mundial. O aumento de poluição está a acontecer nos países com economias emergentes, onde o crescimento económico e o desenvolvimento de infraestruturas têm sido altos.

-    Embora as emissões totais de CO2 de alguns países em desenvolvimento já ultrapassem as dos países desenvolvidos, considerando os valores per capita, elas são ainda significativamente menores.

-    Qualquer que seja o método de cálculo, um pequeno número de países é responsável por uma grande parte das emissões globais. Em 2010, dez países foram responsáveis por cerca de 70% das emissões de CO2 do mundo, pelos combustíveis fósseis e processos industriais.

-    Os sectores de produção de eletricidade (47%) e indústria (30%) representaram mais de 75% do aumento das emissões anuais de GEE entre 2000 e 2010.

-    Durante o período de 2000 a 2010, o crescimento económico e da população foram os dois principais impulsionadores do aumento das emissões. Sem esforços explícitos para reduzir as emissões, esta tendência irá continuar.

-    De acordo com o IPCC, a concentração atmosférica de CO2-equivalente (ou seja, todos os gases de efeito estufa em conjunto) de mais de 530 partes por milhão (ppm) irá conduzir muito provavelmente a um aquecimento global superior a 2ºC, em comparação com níveis pré-industriais - o limite máximo para o aquecimento global, que os governos acordaram nas negociações climáticas da ONU em Cancun, em 2010. Em 2013, o mundo ultrapassou a marca de 400 ppm, pela primeira vez.

-    O aumento da temperatura abaixo dos 2 graus Celsius até 2100 é, seguramente, ainda é possível, mas exigirá grandes mudanças no “mix” energético global, para além de cortes profundos nas emissões nas próximas décadas. Mesmo limitar o aquecimento a 1,5ºC não é posto fora de hipótese pelo IPCC.

-    Cortes significativos nas emissões serão exigidos aos países desenvolvidos e às economias emergentes. Os países ricos terão de cortar suas emissões em cerca de 50 % até 2030 (em relação aos níveis de 2010). Na Ásia, as emissões em 2030 não pode ser maior do que eram em 2010. Os países latino-americanos também serão obrigados a reduzir significativamente as emissões.

-    As fontes de energia de emissão zero ou de emissões reduzidas têm de pelo menos triplicar até 2050, enquanto as emissões globais de GEE terão de ser reduzidas entre 35% a 70% até 2050 (também em relação a 2010).

-    A estabilização das concentrações de gases de efeito estufa em níveis baixos terá de incluir a eliminação a longo prazo das tecnologias baseadas nos combustíveis fósseis e a sua substituição por alternativas de baixas emissões.

-    Uma economia de baixo carbono não tem necessariamente de se traduzir num crescimento económico reduzido. Nalguns países tem sido implementada uma fiscalidade verde, a par do desenvolvimento tecnológico e de outras políticas que têm contribuído para uma dissociação entre as emissões de carbono e o PIB.

-    A transformação para uma economia de baixo carbono vai exigir novos padrões de investimento que resultará na criação de uma quantidade significativa de novos empregos. A redução dos subsídios aos combustíveis fósseis pode atingir reduções de emissões significativas, sem nenhum ou com baixo custo social.

-    O investimento na extração e produção de eletricidade a partir de combustíveis fosseis terá de ser cortado em 30 mil milhões dólares por ano entre 2010 e 2029, enquanto o investimento em produção de eletricidade com reduzidas emissões de carbono tem de subir até aos 147 mil milhões dólares. Atualmente, o investimento total anual global no sistema elétrico é de cerca de 1,2 biliões de dólares.

-    Se o mundo atrasar a mitigação e não pararem de aumentar as emissões ao ritmo atual antes de 2030, será muito difícil manter o aquecimento abaixo dos 2ºC.

-    O aumento da temperatura abaixo dos 2ºC terá co-benefícios adicionais, tais como:
o    tornar menos oneroso alcançar a segurança energética e os objetivos de qualidade do ar;
o    minimizar os impactes sobre a saúde humana e sobre os ecossistemas;
o    criar postos de trabalho em novas e prósperas indústrias, tais como as associadas às energias renováveis;
o    melhorar a capacidade dos países para atender às suas necessidades de energia, o que levará a uma menor volatilidade dos preços e interrupções de fornecimento.



Lisboa, 13 de abril de 2014

A Direção Nacional da
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza



Artigo relacionado: Relatório do IPCC sobre impactes das alterações climáticas revela futuro ameaçador para a Europa

 

 

 

 

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