Fogos Florestais : Erosão pode atingir 12,5 milhões de toneladas de solo; Quioto mais longe; recursos hidricos ameaçados

A Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza faz uma avaliação preliminar das consequências dos fogos florestais das últimas semanas em três vertentes - solo, água e ar.

 

Solo

 

A Quercus estima em 12,5 milhões de toneladas a quantidade de solo que será erodido durante os próximos doze meses como resultado dos fogos florestais das últimas semanas. Este número será substancialmente mais elevado se considerarmos um maior período de tempo, tudo dependendo das medidas de controlo de erosão que possam vir a ser tomadas.

 

O número calculado pela Quercus resulta de uma mera estimativa com base em artigos científicos que avaliam as consequências de fogos florestais em diferentes locais, sendo que se apresenta um valor médio dos que foram encontrados na literatura para fogos florestais em solos, relevo e circunstâncias semelhantes aos ocorridos em Portugal nas últimas semanas. Para efeitos do cálculo efectuado considerou-se uma área de 250 mil hectares ardidos. Uma avaliação rigorosa envolverá o recurso a sistemas de informação geográfica, detecção remota, modelos de erosão e observações no terreno.

 

Os fogos florestais destroem as camadas mais superficiais de solo e a vegetação, alteram a infiltração expondo os solos ao impacte da chuva e criando condições repelentes à água.

 

A erosão depende principalmente dos seguintes factores:

- tipo de solo

- uso do solo anterior ao fogo

- declive

- intensidade e duração das chuvadas que venham a ocorrer.

 

As principais consequências em termos de erosão são sempre as verificadas no primeiro ano após grandes incêndios, em particular com as primeiras chuvadas de final de Verão / princípio de Outono. É absolutamente fundamental definir a forma como o material ardido vai ser retirado do solo, sendo que em muitos casos é claramente preferível não intervir para que apenas a regeneração natural tenha lugar causando assim menores consequências em termos de erosão.

 

Ganha assim cada vez mais relevo a importância de uma política integrada que permita repor solo e matéria orgânica nos locais mais afectados, recorrendo por exemplo, a um correcto reaproveitamento dos resíduos fermentáveis de origem agrícola e urbana. É também fundamental que Portugal, um dos países com fortes problemas de desertificação no sul e interior centro e norte, passe a olhar seriamente para o seu Plano de Acção Nacional de Combate à Desertificação aprovado em 1999, mas com acções praticamente invisíveis e atrasadas.

 

Água

 

As perdas de solo em encostas dão origem a impactes significativos nos ecossistemas aquáticos. O movimento do solo erodido para as ribeiras, rios e albufeiras causam uma degradação significativa da qualidade da água e modificam as características geomorfológicas e hidrológicas destes sistemas. Parâmetros como os sólidos suspensos, a turbidez, a condutividade, o pH, são apenas alguns dos que sofrerão modificações significativas imediatas, sendo que os sedimentos arrastados poderão conter outras substâncias capazes de influenciar o ecossistema e a qualidade de água para abastecimento público no médio prazo, nomeadamente pela diminuição do volume das albufeiras e pela carga orgânica que consigo transportam.

 

A presença de várias albufeiras em cursos de água afectados por este fenómeno, em particular o rio Zêzere e a albufeira de Castelo de Bode que abastece os concelhos da Grande Lisboa Norte, serão sem dúvida afectados nos próximos meses numa escala ainda a avaliar.

 

Nas questões relacionadas com os recursos hídricos é fundamental que, os Planos de Bacia Hidrográfica, cuja execução está estagnada desde há quase dois anos, tenham a aplicação e acompanhamento que merecem, devendo ganhar destaque as questões de gestão relacionadas não apenas com as estações de tratamento de águas residuais, mas principalmente com a poluição difusa e com medidas que deverão ser activadas e redimensionadas para lidar com as consequências da erosão causada pelos fogos florestais.

 

Ar

 

Em termos de qualidade do ar, as consequências dos fogos florestais reflectiram-se nas zonas afectadas por incêndios, por elevadas concentrações de monóxido de carbono, mas também pelos elevados níveis de partículas registados em vários locais do país onde é efectuada a sua medição, sendo porém sempre difícil distinguir qual a fracção resultado de outra poluição e a resultante dos fogos. Tal impacte foi igualmente visível através de imagens de satélite.

 

Um dos problemas de médio / longo prazo é a emissão de dióxido de carbono, seja ela directa ou indirecta (na forma de monóxido de carbono). O dióxido de carbono é o principal gás de efeito de estufa, sendo o aumento da sua concentração à escala mundial responsável pelas alterações climáticas, nomeadamente a maior ocorrência de anomalias climáticas ou condições meteorológicas extremas como a onda de calor recente.

 

Portugal, que tem de cumprir no quadro do Protocolo de Quioto e de compromissos europeus metas até aos anos de 2008-2012, vai ter a tarefa ainda mais complicada devido precisamente aos incêndios. Portugal não pode aumentar mais que 27% de emissões entre 1990 e 2010, sendo que em 2001 já atingiu um aumento de 36,5%.

 

A floresta é considerada como um sumidouro de dióxido de carbono (retira carbono da atmosfera em vez de o emitir). Se em Portugal a floresta e alterações de uso do solo foram responsáveis em 1990 por uma contribuição positiva de 0,4 quilotoneladas (kton), o cenário de referência apresentado pelo Instituto do Ambiente aponta para que no ano 2010, as florestas venham a ser responsáveis por um desagravamento das emissões entre 2,2 e 2,5 kton. Este valor representa uma contribuição deste sector na diminuição em 4,1% em relação às emissões de 1990. Isto é, estando já Portugal 9,5% acima da meta de Quioto em 2001, as florestas e o uso do solo que sempre poderiam fazer descer este valor em cerca de 4%, não terão essa função e as dificuldades para cumprir Quioto estão assim agravadas.

 

Acresce ainda o facto que menos floresta significa não apenas menor redução de dióxido de carbono da atmosfera, mas também menos biomassa que poderia ser utilizada na substituição de combustíveis fósseis na produção de calor e/ou electricidade.

 

Quercus quer comissão especializada para avaliar consequências e medidas

 

À semelhança do que outros países Mediterrâneos, Estados Unidos e Austrália fizeram imediatamente à ocorrência de grandes incêndios, a Quercus recomenda a imediata criação de uma comissão de peritos/especialistas da administração e universidades, no sentido de aconselhar sobre as medidas cruciais a tomar em termos de prevenção de riscos ambientais causados pelos fogos e simultaneamente sobre os princípios (muito deles já existentes mas não implementados) da anunciada reforma da floresta a divulgar em Outubro deste ano. O trabalho e avaliação efectuados pelos especialistas deveriam decorrer nos próximos meses e serem totalmente acessíveis ao público interessado.

 

A Quercus lembra que as universidades têm tido infelizmente um papel menor e quase irrelevante no combate aos incêndios, tendo sido muito pouco utilizada a informação sobre risco, simulação e modelação que tem sido adquirida em trabalhos de investigação desenvolvidos nos últimos anos. Nalguns casos, Portugal é líder na investigação na área dos fogos florestais, tendo a Quercus já participado em vários projectos desenvolvidos. No dia a dia da gestão da floresta, prevenção e combate aos incêndios, esses conhecimentos têm estado praticamente sempre de parte.

 

A Direcção Nacional da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza

Lisboa, 19 de Agosto de 2003

 

 

 

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