Pesticidas: Relatório do relator especial da ONU para o direito à alimentação

Os pesticidas não garantem a segurança alimentar, são tóxicos para a saúde e para o ambiente

 

pesticidasLisboa, 09 de março de 2017 - Ontem (8 de março de 2017), o relator especial da ONU para o direito à alimentação apresentou ao Conselho das Nações Unidas para os Direitos Humanos um relatório[1] sobre os diferentes problemas relacionados com os pesticidas. Ineficazes para garantir a segurança alimentar, tóxicos para a saúde humana e para o ambiente, os pesticidas fazem parte de um modelo de agricultura que está desatualizado e apenas beneficia as multinacionais e a indústria, enquanto os agricultores da UE lutam para sobreviver.

 

 

Os argumentos do lobby dos pesticidas

 

Nos últimos anos, não têm faltado dados científicas e recolhidos no terreno que mostram que o atual modelo de agricultura está num impasse. Este relatório das Nações Unidas apresenta uma nova dimensão para o problema dos pesticidas, que tem sido pouco mencionada: a dimensão política. De facto, tal como observa a Pesticide Action Network Europe, organização da qual a Quercus é membro ativo, a indústria dos pesticidas gasta milhões de euros[2] a fazer lobby para a manutenção dos seus produtos tóxicos no mercado. Muitas vezes, apresenta informações falsas aos decisores políticos, assusta as pessoas com números alarmantes, como o de 85% de perdas se não usarem pesticidas e insiste em realçar o argumento do “medo da fome”.

 

 

A falácia do argumento da segurança alimentar

 

Nestes últimos anos, os cientistas independentes deixaram poucas dúvidas sobre a utilidade dos pesticidas para a humanidade. A diferença de rendimento entre a agricultura convencional e a agricultura biológica é de apenas 8 ou 9%, comparada com os mais de 30% do desperdício anual de alimentos[3]. Além disso, verificou-se que o custo das externalidades ultrapassa os benefícios que os pesticidas possam implicar[4]. Ainda na semana passada, cientistas franceses do INRA (International Natural Rubber Agreement) estimaram que, sem introduzir alterações no sistema de cultivo, os agricultores franceses podem já reduzir em 30% o uso de pesticidas, sem qualquer perda de rendimento[5].

 

Martin Dermine, da PAN Europe afirmou: “estamos satisfeitos por ver que o relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação confirma aquilo que vimos denunciando há décadas: a utilização de pesticidas não tem nada a ver com segurança alimentar. Os pesticidas servem para aumentar os lucros das multinacionais e para manter os nossos agricultores prisioneiros de um sistema altamente poluente que produz alimentos de baixa qualidade e intoxica os operadores, as pessoas que se encontrem nas proximidades, os consumidores e o ambiente. A história continua a repetir-se: os pesticidas são apresentados como revolucionários e depois são banidos devido à sua toxicidade: os organoclorados (DDT) e os organofosforados foram usados intensivamente e depois foram banidos. Atualmente, a ciência aponta os neonicotinóides e os piretróides devido à sua toxicidade para as abelhas e os humanos. Os pesticidas levam-nos a um impasse que é mantido através de pressões exercidas pela indústria sobre os decisores. Entretanto, os cidadãos da UE são diariamente expostos a estes químicos[6]. No debate mais específico da UE sobre o glifosato, observamos claramente a influência da indústria que é destacada neste relatório e que impede uma melhor proteção da nossa saúde e do ambiente”.

 

 

O glifosato

 

Segundo Angeliki Lyssimachou, ecotoxicologista da PAN-Europe “No que diz respeito à segurança dos pesticidas, a UE tem uma situação melhor do que a do resto do mundo, mas a situação está muito longe de ser a ideal: o princípio da precaução é uma coisa teórica usada em ocasiões muito raras. O exemplo do glifosato é muito claro a este respeito: em 2015, a Agência Internacional de Investigação do Cancro classificou o glifosato como um potencial cancerígeno, tendo em conta a toxicidade do produto completo, incluindo coformulantes (Roundup). Em 2015, a autoridade europeia para a segurança alimentar, ao avaliar apenas o ingrediente ativo (glifosato), concluiu que a substância era segura. Trata-se de uma grave lacuna na segurança da UE contra a ameaça dos pesticidas, perante a qual os nossos reguladores fecharam os olhos! A Agência Europeia dos Produtos Químicos poderá apresentar hoje a sua classificação sobre a carcinogenicidade do glifosato. Esperamos, em nome da saúde e do ambiente, que a Agência siga a opinião do IARC, que se baseia em dados científicos divulgados publicamente.”

 

 

Existem alternativas!

 

Em Portugal, a Quercus saúda particularmente a divulgação deste relatório numa altura em que investe esforços para sensibilizar sobretudo as autarquias para a redução de uso dos pesticidas e o abandono de herbicidas, nomeadamente com glifosato. Muito em breve, a Quercus irá anunciar publicamente a realização de um encontro nacional sobre esse tema, onde irão estar em destaque práticas alternativas ao uso de herbicidas químicos.

 

 

 

A Direção Nacional da Quercus, Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

 

 

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