Arrábida: Salva pela falta de vento, Não pelo ordenamento!

A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, após a ocorrência do incêndio de ontem no Parque Natural da Arrábida, vem desta forma lamentar mais uma vez a perda de um património natural relevante novamente por razões recorrentes – os fogos florestais.

 

O incêndio que teve início na zona do Alhambre a 20 de Julho, quarta-feira, ocorreu um pouco mais de um ano depois do incêndio que atingiu o coração da Arrábida. A 6 de Julho de 2004, a Serra da Arrábida foi atingida por um dos incêndios com maior impacte para a conservação da natureza na zona nos últimos anos. As áreas ardidas em 2004, que agora lentamente recuperam, tinham o segundo mais elevado estatuto de protecção do património natural, o que demonstra a dimensão das perdas ambientais decorrentes. Felizmente, em termos de conservação da natureza, as áreas agora ardidas (cerca de 400 hectares), apresentam um menor valor e correspondem essencialmente a zonas de mato e floresta com pinheiro manso.

 

A Quercus acompanhou de perto o decorrer dos esforços no teatro das operações e quer deixar aqui o público reconhecimento do esforço da mais de uma centena de bombeiros na defesa do património natural desta Área Protegida. Da mesma forma, não pode deixar de registar com agrado o envolvimento dos diferentes responsáveis ao nível regional, nomeadamente dos esforços desenvolvidos no quadro da protecção civil, pela Governadora Civil de Setúbal, autarcas e respectivos técnicos e pelo Parque Natural da Arrábida. O envolvimento de meios aéreos numa fase mais precoce em comparação com o ano passado, apesar da expansão do incêndio se ter verificado muito rapidamente, pode ter sido decisiva, principalmente pela dificuldade de acesso às zonas do fogo.

 

Condições meteorológicas salvam Arrábida

 

Mais uma vez a necessidade de salvaguardar as casas dispersas entre as zonas de Alhambre e Picheleiros centrou a acção dos bombeiros que só mais tarde se dedicaram a impedir, através da abertura de caminhos, a passagem do incêndio para Sul, o que motivaria sem dúvida uma catástrofe ecológica semelhante ou maior à do passado ano. A ausência de caminhos e a falta de limpeza de algumas áreas nesta zona de tampão envolvente da Serra continua também a ser uma deficiência que é necessário corrigir.

 

Foi o vento muito fraco que se fez sentir durante a tarde e noite o factor mais decisivo para a circunscrição e domínio do incêndio; se o mesmo tivesse soprado de Norte, certamente o rumo dos acontecimentos seria muito diferente como muitos técnicos reconheceram.

Como é evidente, não pode porém ser a sorte a comandar os destinos de uma área única em termos paisagísticos e naturais.

 

Ordenamento: o exasperante caminho da divulgação e publicação

 

A Quercus considera que não se pode esperar mais tempo para que as medidas de ordenamento previstas no Plano aprovado no passado dia 5 de Junho, já com um atraso de largos anos, venham a ser implementadas, nomeadamente no que respeita às limitações de novas construções ou de construção nas áreas de Reserva Ecológica Nacional.

 

Infelizmente, o Plano de Ordenamento da Arrábida, onde imaginamos estarem previstas estas medidas, continua secreto e sem data prevista nem para divulgação por parte do Governo, nem para publicação. Também é importante que um conjunto de processos de demolição de obras ilegais seja executado, bem como a actuação da justiça face às ilegalidades identificadas na gestão do próprio Parque Natural.

 

A Quercus espera que o Instituto de Conservação da Natureza, através do Parque Natural da Arrábida, tome as medidas que permitam avaliar o impacte nos habitats decorrentes deste incêndio, bem como as acções a tomar em resultado desse diagnóstico. 

 

A Quercus lembra ainda que estes incêndios são sempre gravosos porquanto está em curso o processo de preparação da candidatura da Arrábida a Património Mundial Natural da Humanidade, que apesar de não incluir a área ardida como área principal, a inclui como zona tampão a conservar e melhorar em termos de valores naturais e paisagísticos.

 

A Direcção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

Lisboa, 21 de Julho de 2005

 

 

 

Quaisquer esclarecimentos adicionais podem ser prestados por Francisco Ferreira, membro da Direcção Nacional, telemóvel 93-7788470.

 

 

 

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